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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

SÃO PEDRO, ROMA E OS TESTEMUNHOS PRIMITIVOS DA IGREJA



INTRODUÇÃO

A centralidade da fé católica está enraizada na pessoa do Cristo. Sendo ele Deus e Senhor, antes mesmo de findar seu ministério terreno, deixou as bases principais para que o evangelho fosse propagado de forma imaculada. Jesus era judeu, Jerusalém era a capital do rito cultual de todos os hebreus, porém, desde o início da Igreja, a fé tem sido guiada e tratada com certa particularidade a partir do mundo grego-romano, uma vez que, os novos convertidos eram os frutos gerados da pregação apostólica direcionada não apenas a israelitas, mas também, ao povo gentílico. 


São Mateus em seu evangelho, registra às importantes palavras de Jesus no que diz respeito a “nova nação” que assumiria a frente do Reino de Deus:  

Mt 21,43 – “Por isso vos afirmo que o Reino de Deus vos será tirado e confiado a um povo que o fará produzir seus frutos”.

Após a ascensão de Jesus, a Igreja se espalhou rapidamente por outras regiões e deixou de ser uma religião estritamente judaica para assim, tornar-se uma fé puramente universal. Essa universalidade foi se concretizando através de novas sedes que surgiam, onde, haviam novos sacerdotes e bispos. Santo Inácio de Antioquia (107 d.C) em sua epístola aos Efésios comenta sobre os “bispos que são nomeados em todo o mundo” (Ef 3,2) , assim como da importância do cristão de estar unido a ele (bispo) para celebrar a unidade de toda a Igreja (Ef 5,1-2).

É notável afirmar que grande parte da patrística dos primeiros séculos da Igreja, parece ter entendido que de todas as novas sedes que se instalavam nas províncias, uma gozava de particular reputação: Roma. Embora tivesse sido em Antioquia o local onde os crentes tenham ganhado pela primeira vez o nome de cristãos (At 11,26), foi na cidade romana que a nova crença ganha novos ares de poder. São Paulo em sua carta aos cristãos de Roma, exalta a fé que já era celebrada em todo o mundo (Rm 1,8).

Um dos motivos principais pela estruturação do forte mover da sede episcopal em Roma, deve-se ao fato do seu primeiro Bispo, São Pedro o apóstolo. O discípulo que teve seu nome alterado (Simão = Cefas = Pedro = Pedra Jo 1,42), recebeu do próprio Cristo o poder de “ligar e desligar” (Mt 16,19) e tinha como missão confirmar a fé dos seus irmãos (Lc 22,31-32), está intimamente ligado a antiga cidade chamada de babilônia, uma vez que, segundo forte tradição, teria Pedro ali, exercido seu episcopado e posteriormente tornado-se mártir ao ser crucificado de cabeça para baixo nos tempos do Imperador Nero. Ainda que boa parte do mundo protestante, tente afirmar o contrário quando o tema é referente ao ministério petrino e a sede romana, a história dos primeiros 6 (seis) séculos da Igreja demonstra grande segurança no que diz respeito a cátedra de Pedro.

O presente artigo não irá explorar linhas interpretativas ou análises de outros teólogos, entretanto, serão colocadas citações que procurarão esclarecer ao leitor a respeito da fé primitiva que repousa na Santa Igreja, coluna e sustentáculo da verdade (1 Tm 3,15). 


I SÉCULO (0 a 100 d.C)

Epístola de São Paulo aos Romanos (55-58 d.C):

“Em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque vossa fé é celebrada em todo o mundo” (Rm 1,8).


1ª Epístola de São Pedro (64 d.C):

“Por Silvano, que considero irmão fiel, vos escrevi em poucas palavras, exortando-vos e testificando que esta é a verdadeira graça de Deus, na qual deveis permanecer firmes. A que está em Babilônia (Roma), eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, meu filho” (1 Pe 5,12-13).


Evangelho segundo São Marcos (64 d.C):

“Jesus saiu com os seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipe e pelo caminho perguntou-lhes: <Quem dizem os homens que eu sou?>. Responderam-lhes os discípulos: <João Batista; outros, Elias; outros, um dos profetas>. Então, perguntou-lhes Jesus: <E vós, quem dizeis que eu sou?> Respondeu Pedro: <Tu és o Cristo>” (Mc 8,27-29).


Evangelho segundo São Mateus (70 d.C):

“Simão Pedro respondeu: <Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo!> Jesus, então, lhe disse: <Feliz és Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: <tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; às portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei às chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus>”  (Mt 16,16-19).


Evangelho segundo São Lucas (80 d.C):

“Num dia em que ele estava a oras a sós com os discípulos, perguntou-lhes: <Quem dizem que eu sou?> Responderam-lhes: <Uns dizem que és João Batista; outros, Elias; outros pensam que ressuscitou algum dos antigos profetas>. Perguntou-lhes, então: <E vós, quem dizeis que eu sou?> Pedro respondeu: <O Cristo de Deus>”  (Lc 9,18-20).

“Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneiras como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos” (Lc 22,31).


Atos dos Apóstolos, segundo São Lucas (70 ou 80 d.C):

“Pedro, então, de pé, junto com os Onze, levantou a voz e assim lhes falou: <Homens da Judéia e todos voz, habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e prestai ouvidos às minhas palavras>” (At 2,14).

“Então Pedro, repleto do Espírito Santo, lhes disse: <Chefes do povo e anciãos! Uma vez que hoje somos interrogados judicialmente a respeito do benefício feito a um enfermo e de que maneira ele foi curado>” (At 4,8).

“Mais e mais aderiam ao Senhor, pela fé, multidões de homens e de mulheres a ponto de levarem os doentes até para as ruas, colocando-os sobre leitos e em macas, para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse algum deles” (At 5,14-15).

“Tornado-se acesa a discussão, levantou-se Pedro e disse: <Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros, aprouve a Deus, entre vós, que por minha boca ouvissem os gentios a palavra da Boa Nova e abraçassem a fé” (At 15,7).


Evangelho segundo São João (95 d.C):

 “Levou-o a Jesus, e Jesus fixando nele o olhar, disse: <Tu és Simão filho de João; serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)>” (Jo 1,40-42).

“Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: <Simão, filho e João, amas-me mais do que estes?> Respondeu ele: <Sim, Senhor, tu sabes que te amo>”. Disse-lhe Jesus: <Apascenta os meus cordeiros>” (Jo 21,15).


Epístola aos Coríntios, segundo o Papa Clemente de Roma (aproximadamente: 81-96 ou 96-98 d.C)

OBS: Clemente, no exercício de sua autoridade, envia uma Carta à Igreja de Corinto na intenção de corrigi-los fraternalmente. 

“Eu vos chamei, e não obedecestes; prolonguei meus discursos, e não prestastes atenção. Ao contrário, tornastes inúteis os meus conselhos e rejeitastes minhas admoestações. Por isso, eu também rirei da vossa ruína, e me alegrarei quando alastrar sobre vós o extermínio, quando caírem sobre vós à tempestade, quando vier à catástrofe semelhante ao furacão, e cair sobre vós à aflição e a angústia. Então me chamareis, mas eu não vos escutarei. Os maus me procurarão, porém não me encontrarão, porque eles odiaram a Sabedoria e não escolherem o temor do Senhor; não quiseram dar atenção aos meus conselhos, e desprezaram as minhas admoestações” (Aos Coríntios 57,4-5).

“Se alguns desobedecem ao que nós lhe dissemos da parte de Deus, saibam eles que estão incorrendo em falta e não poucos perigos” (Aos Coríntios 59,1).

“Vós nos dareis alegria e contentamento, se obedecerdes ao que escrevemos por meio do Espírito Santo, se acabardes com a cólera injusta da vossa inveja, segundo o pedido, que vos dirigimos nesta carta, tendo em vista a paz e a concórdia” (Aos Coríntios 63,2).


II SÉCULO (101 a 200 d.C) 


Epístola aos Romanos, segundo Santo Inácio de Antioquia (aproximadamente: 107 a 110 d.C):

“Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que recebeu a misericórdia, por meio da magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho único; à Igreja amada e iluminada pela bondade daquele que quis todas as coisas que existem, segundo fé e amor por Jesus Cristo, nosso Deus; à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada feliz, digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside ao amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai; eu a saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai” (Aos Romanos, saudação). 


Contra as Heresias, segundo Santo Irineu de Lião (180 d.C):

“Assim, Mateus publicou entre os judeus, na língua deles, o escrito dos Evangelhos, quando Pedro e Paulo evangelizavam em Roma e aí fundavam a Igreja. Depois da morte deles, também Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, nos transmitiu por escrito o que Pedro anunciava. Por sua parte, Lucas, o companheiro de Paulo, punha num livro o Evangelho pregado por ele. E depois, João, o discípulo do Senhor, aquele que recostara a cabeça ao peito dele, também publicou o seu Evangelho, quando morava em Éfeso, na Ásia” (Contra as Heresias [III livro] 1,1).

“Mas visto que seria coisa bastante longa elencar, numa obra como esta, as sucessões de todas as igrejas, limitar-nos-emos à maior e mais antiga e conhecida por todos, à igreja fundada e constituída em Roma, pelos dois gloriosíssimos apóstolos, Pedro e Paulo, e, indicando a sua tradição recebida dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, que chegou até nós pelas sucessões dos bispos, refutaremos todos os que de alguma forma, quer por enfatuação ou vanglória, quer por cegueira ou por doutrina errada, se reúnem prescindindo de qualquer legitimidade. Com efeito, deve necessariamente estar de acordo com ela, por causa da sua origem mais excelente, toda a igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, porque nela sempre foi conservada, de maneira especial, a tradição que deriva dos apóstolos” (Contra as Heresias [III livro] 3,2).

 “Os bem-aventurados apóstolos que fundaram e edificaram a Igreja transmitiram o governo episcopal a Lino, o Lino que Paulo lembra na carta a Timóteo. Lino teve como sucessor Anacleto. Depois dele, em terceiro lugar, depois dos apóstolos, coube o episcopado a Clemente, que vira os próprios apóstolos e estivera em relação com eles, que ainda guardava viva em seus ouvidos a pregação deles e diante dos olhos a tradição. E não era o único, porque nos seus dias viviam ainda muitos que foram instruídos pelos apóstolos. No pontificado de Clemente surgiram divergências graves entre os irmãos de Corinto. Então a Igreja de Roma enviou aos coríntios uma carta (carta mencionada no campo “I Século”) importantíssima para reuni-los na paz, reavivar-lhes a fé e reconfirmar a tradição que há pouco tempo tinham recebido dos apóstolos, isto é, a fé num único Deus todo-poderoso, que fez o céu e a terra, plasmou o homem e provocou o dilúvio, chamou Abraão, fez sair o povo do Egito, conversou com Moisés, deu a economia da Lei, enviou os profetas, preparou o fogo para o diabo e os seus anjos. Todos os que o quiserem podem aprender desta carta que este Deus é anunciado pelas Igrejas como o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e conhecer a tradição apostólica da Igreja, porque mais antiga do que os que agora pregam erradamente outro Deus superior ao Demiurgo e Criador de tudo o que existe” (Contra as Heresias [III livro] 3,3).

“A este Clemente sucedeu Evaristo; a Evaristo, Alexandre; em seguida, sexto depois dos apóstolos foi Sisto; depois dele, Telésforo, que fechou a vida com gloriosíssimo martírio; em seguida Higino; depois Pio; depois dele, Aniceto. A Aniceto sucedeu Sóter e, presentemente, Eleutério, em décimo segundo lugar na sucessão apostólica, detém o pontificado. Com esta ordem e sucessão chegou até nós, na Igreja, a tradição apostólica e a pregação da verdade. Esta é a demonstração mais plena de que é uma e idêntica a fé vivificante que, fielmente, foi conservada e transmitida, na Igreja, desde os apóstolos até agora” (Contra as Heresias [III livro] 3,3).


III SÉCULO (201 a 300 d.C)


Tratado sobre os princípios, segundo Orígenes (220 a 230 d.C):

 “Penso, com efeito, que a natureza humana tem limites definidos, mesmo quando se trata de Paulo, de quem está escrito: <Este é para mim um vaso de eleição (At 9,15)>, ou de Pedro, contra quem nada podem as portas do inferno” (Tratado sobre os princípios [Livro III] 2,5).



Homilias sobre o evangelho de São Lucas, segundo Orígenes (240 d.C):

“<Todos vós sereis escandalizados nesta noite>. Por tanto, todos foram escandalizados, a tal ponto que o próprio Pedro, o chefe dos apóstolos, renegou Jesus três vezes” (Homilia 17, capítulo 6).


IV SÉCULO (301 a 400 d.C)

História Eclesiástica, segundo Eusébio de Cesaréia (303 a 324 d.C):

“Imediatamente depois, ainda no começo do império de Cláudio, a Providência universal, boníssima e cheia de amor aos homens, conduziu pela mão a Roma, qual adversário deste destruidor da vida, o valoroso e grande apóstolo Pedro, o primeiro dentre todos pela virtude. Autêntico general de Deus, munido de armas divinas (Ef 6,14-17; 1Ts 5,8), trazia do Oriente ao Ocidente a preciosa mercadoria da luz inteligível, e anunciava, como a própria luz (cf. Jo 1,9) e palavra de salvação para as almas, a boa nova do reino dos céus”  (HE [Livro II] 14,6).

“Diz-se que o apóstolo conheceu o fato por uma revelação do Espírito. Alegrou-se com o desejo deles e aprovou o livro por meio de leitura nas assembleias. Clemente, no sexto livro das Hypotyposes conta essa história e a confirma com seu testemunho o bispo de Hierápolis, chamado Papias. Pedro menciona Marcos na sua primeira carta que, diz-se, ele mesmo compôs em Roma, assinalando-a com o nome simbólico de Babilônia, no seguinte trecho: “A que está em Babilônia, eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, o meu filho” (1Pd 5,13).”  (HE [Livro II] 15,2).

“Foi também ele, o primeiro de todos os figadais inimigos de Deus, que teve a presunção de matar os apóstolos. Com efeito, conta-se que sob seu reinado Paulo foi decapitado em Roma. E ali igualmente Pedro foi crucificado (cf. Jo 21,18-19; 2Pd 1,14). Confirmam tal asserção os nomes de Pedro e de Paulo, até hoje atribuídos aos cemitérios da cidade” (HE [Livro II] 25,5).

“Pedro, contudo, parece ter pregado aos judeus da Diáspora, no Ponto, na Galácia, na Bitínia, na Capadócia e na Ásia (cf. 1Pd 1,1), e finalmente foi para Roma, onde foi crucificado de cabeça para baixo, conforme ele mesmo desejara sofrer” (HE [Livro III] 1,2).

“Depois do martírio de Pedro e Paulo, o primeiro a obter o episcopado na Igreja de Roma foi Lino. Paulo, ao escrever de Roma a Timóteo, cita-o na saudação final da carta (2Tm 4,21)” (HE [Livro III] 2,1).

“E em primeiro lugar as pertencentes aos santos evangelhos. São as seguintes: <Mateus, no entanto, publicou entre os hebreus e em sua própria língua um Evangelho escrito, enquanto Pedro e Paulo anunciavam a boa nova em Roma e lançavam os fundamentos da Igreja. Mas, após a morte deles, Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu-nos por escrito igualmente o que Pedro pregara>” (HE [Livro V] 8,2-3).

“Tais os fatos. Quanto a Adamâncio (pois Orígenes usava também este apelativo), na época em que Zeferino guiava a Igreja de Roma, esteve em Roma, conforme ele próprio escreveu numa passagem: <Tivera desejos de ver a muito antiga Igreja de Roma>. 95 Após rápida permanência, dali voltou a Alexandria,” (HE [Livro VI] 14,10).

“No quinto livro dos Comentários ao Evangelho segundo João, o mesmo Orígenes declara o seguinte acerca das Epístolas dos apóstolos: “Paulo, digno ministro do Novo Testamento, não segundo a letra, mas segundo o espírito, depois de ter anunciado o evangelho desde Jerusalém e suas cercanias até o Ilírico (Rm 15,19), não escreveu a todas as Igrejas que ele havia instruído; mesmo àquelas a que escreveu, enviou apenas poucas linhas. Pedro, sobre quem está edificada a Igreja de Cristo, contra a qual não prevalecerão as portas do inferno (Mt 16,18), deixou apenas uma carta incontestada, e talvez ainda outra, porém controvertida. (HE [Livro VI] 25,7-8).


Explicação dos Símbolos, segundo Santo Ambrósio de Milão (387 a 393 d.C):

“Tu me dirás: Em seguida surgiram as heresias. De fato, também o Apóstolo diz: <É necessário que haja heresias, para que os bons sejam provados> (1Cor 11,19). O que dizer, portanto? Vede a simplicidade, vede a pureza. Quando surgiram os patripassianos, também os católicos desta região julgaram que se devia acrescentar invisível e impassível, como se o Filho de Deus fosse visível e passível. Se ele foi visível na carne, essa carne é que foi visível, não a divindade, a carne é que foi passível, não a divindade. Além disso, escuta o que ele diz: <Deus, meu Deus, olha para mim; por que me abandonaste?> (Sl 21,2; cf. Mt 27,46). Nosso Senhor Jesus Cristo disse isso na paixão. Disse isso enquanto homem, enquanto carne, como se a carne dissesse à divindade: <Por que me abandonaste?> Suponhamos que os nossos anciãos tenham sido médicos, que eles quiseram trazer saúde à doença mediante o remédio. Não se pergunta se o remédio não foi necessário naquele tempo em que as almas de certos hereges estavam com doença grave; se naquele tempo foi necessário, agora não o é. Por qual razão? Tendo sido conservada íntegra a fé contra os sabelianos, os sabelianos foram expulsos, principalmente das regiões do Ocidente. Os arianos encontraram para si nesse remédio uma espécie de calúnia, de modo que, enquanto conservamos o símbolo da Igreja Romana, eles consideraram o Pai todo-poderoso invisível e impassível” (Explicação dos Símbolos, 4).

“Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo, como poderíamos mutilar o símbolo que recebemos como tendo sido composto e transmitido pelos apóstolos? Nada devemos tirar e nada acrescentar. Este é o símbolo conservado pela Igreja Romana, onde Pedro, o primeiro dos apóstolos, sentou-se e onde lhe conferiu a sentença comum” (Explicação dos Símbolos, 7).


Sobre os Sacramentos, segundo Santo Ambrósio de Milão (387 a 393 d.C):

“Nós não ignoramos que a Igreja Romana não tem esse costume, da qual seguimos em tudo o exemplo e forma. Contudo, ela não tem esse costume de lavar os pés. Considera, porém, que ela deixou de lado por causa do grande número. Há também aqueles que dizem, tentando desculpá-la, que isso não se deve fazer no mistério, não no batismo, não na regeneração, mas que se deve lavar os pés como se fossem de hóspede. Contudo, uma coisa é a humildade, outra a santificação. No entanto, escuta: é mistério e também santificação: “Se eu não lavar os teus pés, não terás parte comigo” (Jo 13,8). Não digo isso, porém, para repreender outros, mas para que eu exerça as minhas funções. Desejo seguir em tudo a Igreja romana, mas nós também temos razão humana. O que, em outro lugar, se observa de maneira mais correta, nós também guardamos de maneira mais correta. Seguimos o próprio apóstolo Pedro e estamos apegados ao seu próprio fervor. O que a Igreja Romana responde a isso? Sim, o próprio apóstolo Pedro é, para nós, autor dessa afirmação, ele que foi sacerdote da Igreja Romana. É o próprio Pedro que diz: “Senhor, não só os pés, mas também as mãos e a cabeça” (Jo 13,9). Vê a fé. O que ele recusou antes foi por causa da humildade; depois, quando ofereceu a si mesmo, foi por causa do fervor e da fé” (Sobre os Sacramentos [Livro III] 1,5-6).


Sobre a Penitência, segundo Santo Ambrósio de Milão (387 a 393 d.C):

“É certamente isto que eles confessam a seu próprio respeito — e com razão; de fato, não podem ter a herança de Pedro aqueles que não têm a cátedra de Pedro, a qual despedaçam com uma ímpia divisão. Contudo, é sem razão que negam também que na Igreja os pecados possam ser perdoados. Com efeito, foi dito a Pedro: “A ti eu darei as chaves do Reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será também desligado nos céus” (Mt 16,19), e o próprio “vaso de eleição” (cf. At 9,15) do Senhor diz: “Se perdoais algo a alguém, também eu perdoo; pois também eu, o que perdoei, foi em vosso favor, na pessoa de Cristo” (2Cor 2,10). Por que então eles leem Paulo, se pensam que ele errou com tal impiedade, que chegou a reivindicar para si um direito do seu Senhor? Mas ele reivindicou o que recebera; não usurpou o indevido” (Sobre a Penitência [I livro] 7,34).

“Finalmente diz Pedro a Simão, que, pervertido pelo exercício da magia, julgava poder comprar com dinheiro a graça de Cristo pela imposição da mão e a infusão do Espírito Santo: <Não tens parte nem sorte nesta fé, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Assim sendo, faze penitência por esta tua perversão e roga a Deus para que te seja talvez perdoada esta lembrança do teu coração: pois eu vejo que tu estás nos laços da iniquidade e na amargura do fel” (At 8,21-23). Tu vês que a este, que blasfemou contra o Espírito Santo> pela vaidade da magia, Pedro condena pela autoridade apostólica, — ainda mais que não tinha a consciência pura a para fé. E no entanto não lhe cortou a esperança do perdão, pois que o convidou à penitência” (Sobre a Penitência [II livro] 4,23).

“Portanto, se Pedro usou as mesmas palavras que Deus usou sem prejuízo do próprio saber, por que não admitimos também que Pedro tenha empregado esta expressão sem prejuízo de sua fé? E Pedro, realmente, não poderia ter dúvidas a respeito do dom de Cristo, que lhe concedera o poder de perdoar pecados (cf. Mt 16,19), sobretudo porque não devia dar espaço às astúcias dos hereges, que na verdade querem destruir a esperança dos homens para introduzirem com maior facilidade entre os desesperançados a persuasão de repetir o batismo” (Sobre a Penitência [II livro] 5,34).


Confissões, segundo Santo Agostinho (
397 a 400 d.C):

“Vamos a Igreja, quero tornar-me cristão. Este, não cabendo em si de alegria, o acompanhou imediatamente. Foi aí iniciado nos primeiros mistérios da catequese e, pouco tempo depois, deu o nome para regenerar-se no batismo, para admiração de Roma e alegria de toda Igreja" (VIII livro; 2,5).



V SÉCULO (401 a 500 d.C)



Apologia contra os livros de Rufino, segundo São Jerônimo (402 d.C):

“Ele não pode, agora que é meu inimigo, tratar-me como herege, eu sobre quem ele disse recentemente em seu prefácio que não estava em desacordo com a sua fé. Ao mesmo tempo, aproveito para lhe fazer também esta pergunta: Que quer dizer esta linguagem moderada e dúbia? <O leitor latino, diz ele, nada encontrará aqui que esteja em desacordo com nossa fé.> O que ele chama <sua> fé? Aquela pela qual a Igreja romana exerce seu poder ou aquela que está contida nos volumes de Orígenes? Se ele responde: a fé romana, então nós somos católicos, nós que nada traduzimos do erro de Orígenes. Mas se sua fé são blasfêmias de Orígenes, ele demonstra que é herege, lançando-me sua acusação de inconstância. Ou a fé daquele que me louva é sã e, por sua própria confissão, ele me associa a si, ou então é errônea, e ele mostra que, se fez meu elogio, é porque acreditava que eu fosse participante de seu erro” (Apologia contra Rufino, [I Livro] 4).

“Nunca meu trabalho suscitou algum problema, nunca Roma foi abalada por ele” (Apologia contra Rufino, [I Livro] 8).

“Porque não ambicionamos o sacerdócio, nós que estamos escondidos em nossas celas; e não temos pressa, reprovando a humildade, de comprar a preço de ouro o episcopado. Também não temos, em um espírito de revolta, o desejo de degolar o pontífice escolhido por Deus, nem damos a entender que somos hereges, mostrando-nos favoráveis aos hereges” (Apologia contra Rufino, [I Livro] 32).

“Sabe, porém, que a fé romana, louvada pela voz do Apóstolo, não admite artifícios desta natureza, e que, mesmo se um anjo anunciasse diferentemente do que foi pregado uma vez por todas, a fé sustentada pela autoridade de Paulo não poderia mudar” (Apologia contra Rufino, [III Livro] 12).

“Da comunhão que nos unia, a mim e ao nosso papa Teófilo, eu não invocarei nenhum outro testemunho” (Apologia contra Rufino, [III Livro] 18).

“Na epístola de nosso santo papa Anastásio, tu te mostraste inconstante; e na tua agitação, tu não encontras nada em que possas fincar o pé.” (Apologia contra Rufino, [III Livro] 20).


“Aliás, que a epístola tenha sido escrita por ele ou que ela não tenha sido, tu atestas que não te cabe em nada, porque tens o testemunho de seu predecessor e que, por amor de tua cidadezinha fortificada, tu desprezaste o pedido de Roma de que tu a honrasses pelo brilho de tua presença. Se tu suspeitas que esta carta tenha sido forjada por mim, por que não a procuras no arquivo da Igreja Romana” (Apologia contra Rufino, [III Livro] 20).


Cartas, segundo o Papa Leão Magno (
430 a 461 d.C):

“Por causa de Pedro, o bem-aventurado príncipe dos apóstolos, a santa Igreja romana possui a primazia (princi-patus) sobre todas as Igrejas do mundo inteiro” (Carta 65,2).


Sermão sobre a transfiguração do Senhor, segundo o Papa Leão Magno ( 430 a 461 d.C):

“O apóstolo Pedro, por revelação do Pai supremo, supera o corpóreo e vai além do humano. Vê com os olhos do espírito o Filho de Deus vivo, confessa a glória da divindade, porque não se detém na substância da carne e do sangue. A sublimidade desta fé agradou tanto ao Senhor que ele o chamou feliz e bem-aventurado e outorgou-lhe a sagrada firmeza da pedra inconcussa, sobre a qual seria fundada a Igreja e contra a qual não prevaleceriam as portas do inferno, nem as leis da morte. Além disso, para ligar ou desligar qualquer causa, não seria ratificado nos céus senão o que sentenciasse Pedro.” (sermão transf. Do Senhor, 1).


Sermão na ascensão do Senhor, segundo o Papa Leão Magno ( 430 a 461 d.C):

“Neles, pelo sopro do Senhor, infundiu-se o Espírito Santo nos apóstolos todos; ao bem-aventurado apóstolo Pedro, com primazia, foi entregue após as chaves do reino, o cuidado das ovelhas do Senhor” (I sermão na ascensão do Senhor, 2).


Sermão sobre a quaresma, segundo o Papa Leão Magno ( 430 a 461 d.C):

“Jejuemos pois, na segunda, na quarta e na sexta-feira; no sábado, porém celebramos as vigílias junto do apóstolo Pedro, que não descuidando do rebanho que lhe foi confiado, conseguirá para nós a proteção de suas preces.” (IV sermão sobre a quaresma, 6).


Sermão de pentecostes, segundo o Papa Leão Magno ( 430 a 461 d.C):

“Jejuemos, pois, quarta e sexta-feira e no sábado celebremos as vigílias junto do bem-aventurado apóstolo Pedro. Que ele patrocine nossas orações a fim de merecermos em tudo a misericórdia de Deus” (II sermão de pentecostes, 9).


Tratado contra a heresia de Êutiques, segundo o Papa Leão Magno ( 430 a 461 d.C):



“Vós, pois, amados de Deus e comprovados pelo testemunho apostólico, vós, aos quais o bem aventurado apóstolo Paulo, doutor dos gentios, diz: “Porque a vossa fé é anunciada em todo o mundo”, guardai em vós o que sabeis que tão grande pregador pensava de vós” (tratado contra a heresia de Êutiques, 3).


VI SÉCULO (501 a 600 d.C)


Regra pastoral, segundo o Papa Gregório Magno ( 591 d.C):

“Compreenderemos mais plenamente em que consiste esse discernimento se considerarmos o exemplo do primeiro pastor. Pela iniciativa de Deus, Pedro ocupava o primeiro lugar na Igreja. Ora, como Cornélio, homem justo, se prostrasse humildemente diante dele, Pedro rejeitou esse excessivo sinal de respeito e, reconhecendo-se semelhante a ele, disse: Levanta-te, não o faças, sou um homem também eu. Quando, porém, descobriu o pecado de Ananias e Safira, imediatamente manifestou de modo claro com qual poder tinha sido posto à frente dos demais. Com uma só palavra, tirou-lhes a vida, vida que ele havia escrutado pelo Espírito, e se recordou, então, de haver a mais alta autoridade na Igreja contra os pecados, coisa que não havia reconhecido quando, vivamente, seus irmãos lhe tributavam honra na presença dos justos” (Regra pastoral [segunda parte – a vida do pastor]; capitulo 6).

“É de fato compreensível, como já dissemos, que os fiéis se desencorajem de ouvir a pregação se o pastor se descuida de dar ajuda nas concretas necessidades. Por isso, o primeiro pastor (Pedro) admoesta com solicitude, dizendo: <Exorto os presbíteros que estão entre vós, eu que sou presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo e participante da glória que vai ser revelada: apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado> (1 Pd 5,1-2). Recomendava, nessa passagem, dar alimento para o coração ou aquele para o corpo? Ele esclareceu, acrescentando: Provendo às necessidades não por imposição, mas de livre e espontânea vontade, como Deus o quer; não por causa de lucro sujo, mas com generosidade” (Regra pastoral [segunda parte – que o pastor não deixe, nas suas ocupações exteriores, enfraquecer seu cuidado com a vida interior]; capitulo 7).

“Não existe ninguém que viva de modo que não caia em alguma culpa. Deseja, por conseguinte, ser amado mais do que a verdade aquele que pretende, contra toda a evidência, que ninguém lhe deva perdoar alguma coisa. Por isso, Pedro acolheu de boa vontade a repreensão de Paulo, e Davi ouviu com humildade a correção de um súdito. Assim, os verdadeiros pastores não cultivam sentimentos de amor-próprio e consideram humilde gentileza uma palavra livre e clara por parte dos fiéis” (Regra pastoral [segunda parte – que o pastor não se proponha a agradar aos homens com seu zelo]; capitulo 8).

“Levantem sem demora a arca do testamento e ensinem com prontidão quando se apresenta a necessidade. Por isso, diz bem o primeiro pastor (Pedro) da Igreja exortando os outros pastores: <Sempre prontos a responder a todo aquele que vos pedirá a razão da esperança que está em vós> (1 Pd 3,15)” (Regra pastoral [segunda parte – quando o pastor de almas deve se aplicar a meditar a lei divina]; capitulo 11).

“Por isso, Pedro, vendo que alguns estavam aterrorizados pelo espetáculo das suas ações iníquas, lhes dá este aviso: <Arrependei-vos e cada um de vós se faça batizar> (At 2,38). Antes de falar do batismo, ele falou das lágrimas de arrependimento, para que antes se imergissem na água da própria aflição e, em seguida, se lavassem pelo sacramento do batismo. Por conseguinte, aqueles que não se preocupam de chorar os pecados cometidos, com que ânimo vivem seguros de obter o perdão, se o mesmo sumo pastor da Igreja (Pedro) considerou que se devesse acrescentar a penitência ao sacramento instituído, sobretudo com a finalidade de extinguir os pecados?” (Regra pastoral [terceira parte – É preciso admoestar de modo diferente aqueles que choram os próprios pecados]; capitulo 30).


CONCLUSÃO

A fé da Igreja é inegável, sagrada, santa e verdadeira.

A crença de que São Pedro foi o primeiro líder da Santa Igreja e de que seus sucessores possuem missão continua e inacabada na Igreja de Deus, perdura desde os primeiros tempos apostólicos.

É interessante afirmar que grande parte dos textos posteriores às escrituras, demonstram total coerência com os versos bíblicos que atestam o ministério petrino, sendo assim, crer na missão encabeçada por São Pedro é um ato totalmente bíblico e histórico.

“Tornado-se acesa a discussão, levantou-se Pedro e disse: <Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros, aprouve a Deus, entre vós, que por minha boca ouvissem os gentios a palavra da Boa Nova e abraçassem a fé” (At 15,7).

OBS: Esse texto sofrerá modificações à medida que, novas citações sejam encontradas. 






segunda-feira, 2 de junho de 2014

DOS LÍDERES ISRAELITAS ATÉ O PAPADO


I Cor 14,33 – “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as Igrejas dos Santos”.

INTRODUÇÃO

O anarquismo nunca foi matéria de fé, nem para judeus e tampouco para cristãos. Deus não traz a confusão e sim, a ordem. Estabelece, cria, forma e julga as necessidades do povo, através de chefes que levam a sua palavra e se transformam em “oráculos” vivos do Senhor. Desde a criação, o criador sempre escolheu pessoas que estivessem à frente de seu povo e que possuíssem a missão de levar cada pessoa, ao pleno conhecimento da verdade. O povo israelita, que nos antecedeu, foi acostumado a possuir líderes enérgicos que fossem seus intermediadores e que os representasse perante Deus e perante as nações que os rodeavam. Desde o início dos relatos bíblicos, lemos sobre homens e mulheres que tomaram a frente e conduziram a todos pelos caminhos corretos. Atualmente, é muito comum que muitos cristãos de outras confissões aleguem que o único “líder” de suas comunidades é Jesus Cristo. Simplesmente, expurgam a possibilidade de uma liderança terrena que fale em nome de Deus e como se não bastasse, caracterizam-na como errada, por acreditarem que tal conceito rouba a centralidade do Senhor.

A ideia do presente texto é demonstrar através das sagradas escrituras, que desde a mais antiga era registrada nas sagradas letras, o povo israelita era guiado por “alguém” que demonstrava liderança ativa em dirigir homens, mulheres e crianças na unidade do amor de Deus e que essa continuidade se faz presente através dos apóstolos e do ministério petrino que rege a Igreja através dos séculos.

Pr 16,10 – O oráculo pelas sortes está nos lábios do rei, num julgamento, sua boca não falha.

LÍDERES NO VELHO TESTAMENTO

NOÉ: DE SUA LIDERANÇA, NASCE UM NOVO POVO

O Senhor criou a raça humana, para que cada um fosse a “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,26). Essa semelhança, não consistia em uma mera aparência física e sim, uma aparência espiritual, porém, as sagradas escrituras narram que o homem corrompeu-se com o pecado (Gn 3,1-22) e essa queda, ocasionou desgraças em muitas gerações posteriores. A maldade instalada no coração humano era tão grande, que excitou a ira de Iahweh ao ponto de Deus querer “desaparecer com a criação” (Gn 6,7). Nessa era hostil onde homens e mulheres se destruíam pela corrupção do pecado, o Senhor levanta um homem chamado Noé, que lideraria toda a sua família e toda a criação em busca da salvação para repovoar a terra.  Noé, a mando de Deus, constrói uma arca (Gn 6,13-22) onde abriga sua família e todos os animais (Gn 7,13-16). Iahweh envia um dilúvio e faz desaparecer toda a raça humana que estava destruída pelo pecado da carne (Gn 7,21-22).

Ao sair da arca, a família de Noé dá continuidade à vida humana. Deus os abençoou dizendo: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra” (Gn 9,1). A partir desta narração, o “primeiro líder” de um povo que ainda nasceria, passaria a ser peça importante da cultura judaica. Por fim, Deus estabelece a sua aliança com Noé (Gn 9,12) e com toda a carne que existe sobre a terra.

ABRAÃO, ISAAC E JACÓ: OS PATRIARCAS DE UMA NOVA NAÇÃO

O patriarcado mais primitivo e importante de toda a história judaica, sem dúvida, encontra-se na vida de três homens que deram início a uma nação que viria a se tornar um reino poderoso. O primeiro deles, Abraão (inicialmente chamado de Abrão) foi convidado por Deus a deixar toda a sua casa para ser imigrante em terras desconhecidas. De Abraão, Iahweh prometeu que nasceria um grande povo (Gn 12,1), bastaria olhar para o céu e ver que a quantidade de estrelas, representariam a posteridade desse homem (Gn 15,4). De sua relação com Sara, nasceria Isaac, o filho da promessa (Gl 4,23) e de Isaac, nasceria Jacó (Gn 25,26), que futuramente seria chamado de “Israel” (Gn 43,11). De Jacó, nasceram doze filhos e a partir deles, teremos as doze tribos de Israel. Essas tribos seriam tradicionalmente conhecidas por povoar toda a terra de Canaã.

MOISÉS: O LÍDER LIBERTADOR

Moisés, nascido da casa de Levi (Ex 2,1), foi um dos líderes mais proeminentes do povo hebreu. Deus se manifestou de forma grandiosa em sua vida. O homem que nasceu para libertar seu povo, foi concebido em uma época onde todos os meninos eram mortos por ordens do Faraó (Ex 1,22), entretanto, sua missão já estava desenhada, uma vez que sua própria mãe, na iniciativa de protegê-lo, o colocou em uma arca as margens do rio (Ex 2,3) até que chegasse a filha do faraó (Ex 2,5) que o adotaria e cuidaria de que fosse formado na corte egípcia (Ex 2,10). Quando Moisés já estava longe de sua terra de criação devido à morte de um homem (Ex 2,12), Iahweh se fazia presente manifestando-se de diversas formas. O primeiro contato de Deus que marcaria o início de sua liderança, deu-se através de uma sarça que ardia em fogo, mas, não queimava (Ex 3,2). O Criador concedeu todas as forças necessárias para Moisés, mesmo ele tendo medo e confessando que sua língua era “pesada” (Ex 3,10). Moisés não se considerava eloquente e muito menos apto a assumir um fardo tão cansativo, mas, sua vocação estava respaldada pelo poder do próprio Deus que com um gesto de amor afirmou que “Seria a própria boca de Moisés e que o ensinaria no que falar” (Ex 4,12). A presença de Deus na vida desse grande homem foi importantíssima para o povo hebreu, que viu em Moisés, o libertador e intermediário entre eles e o Senhor (Ex 4,30-31). A Lei, seguida rigorosamente pelos Judeus, foi transmitida por ele (Dt 4,44; Jo 7,19)

JOSUÉ: O LÍDER DA TERRA PROMETIDA

Josué foi o predecessor de Moisés. Junto de Caleb, foram os únicos a acreditar que o povo hebreu poderia entrar na terra prometida (Nm 14,7-9). Após a morte de Moisés (Dt 34,5), Josué foi o homem escolhido por Iahweh para guiar seu povo na trajetória que terminaria nas terras de Canaã (Js 1,1-5). Todo o relato bíblico da história de Josué, procura salientar que mesmo antes do sistema monárquico israelita, o povo já era guiado por um único chefe. Esse chefe, não representava um simples líder político, como vemos na partilha das terras entre as tribos (Js 13-21) e sim, um líder espiritual (Js 23,14) e dotado do poder de Iahweh nas tomadas de decisões (Js  24,1-13). Josué foi o responsável por levar os hebreus à verdadeira adoração ao único Deus (Js 24,21-24).

OS JUÍZES

Antes do estabelecimento de um “reino unificado” ou da “monarquia”, por diversas vezes, o povo israelita infligiu o verdadeiro culto à Iahweh, trocando-o pelas divindades cananéias. Ao acontecer tais fatos, por vontade divina, o povo era entregue aos inimigos estrangeiros. A situação era revertida somente quando os hebreus se arrependiam de seus atos e voltavam ao verdadeiro Deus. Mediante a isto, era escolhido um “Juiz” que inicialmente levava o povo a uma vitória militar sobre os opressores e após o período de bonança, reinava sobre toda a Israel. A narrativa bíblica identifica seis juízes maiores, onde a história é narrada de uma forma mais detalhada (Otoniel, Aod, Barac (e Débora), Gedeão, Jefté e Sansão) e seis juízes conhecidos como menores, onde existe uma breve descrição (Samgar, Tola e Jair, Abesã, Elon e Abdon).

SAMUEL: O ÚLTIMO JUIZ

Samuel, nascido de uma estéril chamada Ana (I Sm 1,5) e consagrado desde o dia do seu nascimento (I Sm 1,28), foi  o último dos Juízes de Israel. Graças a sua intercessão, Samuel, visto pelo povo como libertador de Israel (I Sm 7,8), obteve os méritos juntos de Iahweh pela vitória contra os filisteus expulsando-os do solo israelita (I Sm 7,13). Com o apoio de Deus, julgou Israel durante todos os anos da sua vida (I Sm 7,15) e representou parte decisiva na história da instituição da realeza monárquica (I Sm 8-12). Samuel ungiu os dois primeiros reis do reinado unificado: primeiro a Saul (I Sm 10,1) e depois a Davi (I Sm 16,13).  Ao falecer, toda a casa de Israel guardou seu luto (I Sm 25,1).

O REI DAVI

Davi, ungido por Samuel (I Sm 16,13), foi o segundo rei a comandar toda a casa de Israel. Proeminente em sua vocação, foi depois de Moisés, o herói mais destacado do povo Hebreu. Jesus Cristo, rei e salvador do mundo, fazia parte de sua descendência (Mt 1,6). Davi foi o responsável pela tomada de Jerusalém contra os jebuseus (II Sm 5,6). Se apropriando da cidade, junto do povo, posteriormente, Jerusalém seria conhecida como a “cidade de Davi” (II Sm 5,9). Transformou Jerusalém em capital religiosa ao transportar a arca da aliança para o lugar que futuramente seria construído o templo do culto judaico (II Sm 6, 1-23). Sua realeza era exaltada por Iahweh e todo o povo o reconhecia como um grande homem perante o Senhor dos exércitos (II Sm 5,10).  O Rei Davi obteve vitórias sobre os filisteus (II Sm 5,17-25) e sobre os arameus (II Sm 8,13). Reinou sobre todo o povo de forma justa, exercendo o direito de participar da linhagem messiânica.  Dos 150 salmos escritos, 73 são atribuídos com a autoria de Davi, Rei de Israel.

O REI SALOMÃO

Filho de Davi e Rei após a morte de seu pai, Salomão amou a Iahweh e em tudo seguia os preceitos deixados por seu predecessor (I Rs 3,3). Conhecido por ser o patrono da sabedoria, de acordo com as escrituras, o Senhor concedeu a Salomão um coração sábio e inteligente para discernir entre o bem e o mal (I Rs 3,8-12). Seu reinado foi marcado por um período onde Judá e Israel viveram um tempo de paz e segurança. A fama do Rei Salomão se espalhou por todas as nações circunvizinhas e nunca, em toda a terra foi encontrado homem com tamanha sabedoria (I Rs 5,11). Foi o responsável por construir o templo de Jerusalém, onde se tornou o centro do culto religioso judaico (I Rs 6-8). Por toda a sua sabedoria, alguns livros foram considerados seus escritos, tais como “Sabedoria”, “Provérbios”, “Cântico dos Cânticos” e “Eclesiastes”. De acordo com o livro de reis, Salomão pronunciou três mil provérbios e seus cânticos foram em números de cinco mil (I Rs 5,12).

ESDRAS E NEEMIAS: A LIDERANÇA PÓS-EXÍLIO

Após a liberdade concedida aos hebreus por Ciro, rei da Pérsia (II Cr 36,22-23) em 538 a.C, os judeus foram autorizados a retornar para Judá e dali, iniciar a reconstrução do templo de Jerusalém (Esd 1,1-11) que havia sido destruído pela invasão babilônica por volta do ano 601 a.C. (II Rs 24,10-17). Embora o decreto estivesse oficializado, as obras do templo foram barradas por conta da oposição dos samaritanos (Esd 4,1-5), sendo que, só viria a ser concluído na época de Dario I em 515 (Esd 6,12). Esdras e Neemias, atuam efetivamente na liderança do povo hebreu realizando uma reconstrução da religião e da sociedade de Judá que lutava para manter sua essência no período pós-exílio. Esdras era escriba e sacerdote da lei de Deus (Esd 7,12) e ao retornar para Jerusalém, tinha uma única missão: ensinar toda a Israel a repraticar os estatutos e normas da lei de Iahweh (Esd 7,10). Esdras foi o responsável por oficializar a quebra do matrimônio misto entre judeus e mulheres de outros povos (Esd 9,1-15) e marcou a história vétero-testamentária ao sacramentar a raça judaica como “pura” afastando outras etnias de suas relações pessoais (Esd 10,1-44). Já Neemias, era copeiro do Rei Artaxerxes, conquistou a missão de ir até a cidade santa para auxiliar na construção das muralhas de Jerusalém, sendo que as obras, finalizaram rapidamente e a cidade é enfim repovoada (Ne 7,72). Neemias se torna governador de Judá (Ne 5,14) e uma de suas últimas ações é restabelecer as normas da lei, já promulgada por Esdras (Ne 13,4-31).

OS MACABEUS

Na iniciativa de obter a liberdade religiosa e política do povo judeu contra os selêucidas, uma família levantou-se em pró dos israelitas para assim, conquistar os direitos tão desejados. O principal herói da história é Judas, seguido por seus irmãos, chamados de “Macabeus”, devido ao sobrenome. Judas Macabeu liderou os judeus em campanhas vitoriosas, sendo que após a sua morte (I Mc 9,19-22), seus consanguíneos lhe sucederam, primeiro por Jônatas, chefe e sumo sacerdote (I Mc 9,30-31) e após sua morte, por Simão, etnarca (líder de uma etnia) de todo o povo judeu (I Mc 13,8).

A LIDERANÇA NO NOVO TESTAMENTO

FUNDAMENTO APOSTÓLICO

Ef 2,20 – Estais edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, do qual é Cristo Jesus a pedra angular.

Como foi visto até aqui, anteriormente a vinda de Cristo, o povo hebreu possuiu inúmeros líderes que os levaram ora ao conhecimento da lei, ora as praticas corretas de sua religiosidade, ora a uma vida intima com o Senhor dos céus (II Cr 36,23). Jesus Cristo adentrou ao mundo para a salvação da humanidade e para isso, deixou uma única Igreja que teria a responsabilidade de firmar preceitos, normas, condutas e doutrinas para que, confirmando o povo na fé viva do Salvador, peregrinasse através do mundo, levando o evangelho e o conhecimento de que o messias já havia chegado. Diferente do que muitos pensam, a Igreja não se instalou em regime anárquico, onde cada um seria dono de sua verdade e regido por seus próprios pensamentos. Ao contrário disto, a comunidade primitiva nomeou diáconos (I Tm 8-13), bispos (I Tm 3,1), presbíteros (Tg 5,14) para que assim, existisse uma continuidade dos ensinos e assim, como no passado, o povo de Deus fosse guiado em um único pensamento.

Chamamos de fundamento apostólico toda a doutrina deixada por nossos pais e transmitida através dos séculos por nossos pastores, seja pela tradição da Igreja ou pela escritura sacrossanta. É por esse motivo, que Paulo ao escrever a Timóteo, usa estas palavras:

I Tm 3,14-15 – Escrevo-te estas coisas esperando encontrar-te dentro em breve. Todavia, se eu tardar, saberás como proceder na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo: coluna e sustentáculo da verdade.

SÃO PEDRO: O PRÍNCIPE DOS APÓSTOLOS

 Pedro, o pescador, chamado a ser apóstolo e emissor do evangelho de Cristo. No tempo da graça, nosso Senhor incumbiu os apóstolos com a missão de divulgar o nome de Jesus e de forma especial, “Cefas”, o primeiro entre os de mais (Mt 10,2; Mc 3,16; Lc 6,14; At 1,13), convidado a apascentar as novas ovelhas que surgiriam posteriormente ao Kerigma (do grego: κήρυγμα, kérygma – anuncio; pregação) (Jo 21,15-19). Pedro teve participação direta no ministério de Cristo de diversas formas, afirmando assim, sua vocação. É tido pela Igreja como a base inicial de sua formação (Mt 16,18), dono das chaves do reino dos céus (Mt 16,19),  confessor da divindade do messias (Mt 16,16), receptor de uma revelação especial (Mt  16,17), porta voz dos cristãos (At 4,1-13), responsável por confirmar a fé dos irmãos (Lc 22,32), destacado pelo anjo como líder (Mc 16,7), o primeiro a falar no cenáculo (At 1,15-22), o primeiro a lançar um anátema (At 5,2-11), o primeiro a ressuscitar um morto após a ascensão de Cristo (At 9,40), o primeiro a abrir o primeiro concílio da Igreja [Jerusalém] (At 15,7-11), porta voz nos momentos mais importantes (Mc 8,29; Mt 18,21; Jo 6,67), o primeiro a reconhecer e refutar uma heresia (At 8,14-24), ordenou o batismo do primeiro gentil (At 10,44-48), exorta os demais anciãos (I Pd 5,1) e por fim, escreve sua primeira carta direto de Roma (I Pd 5,13). 

O primado Petrino foi estabelecido pelo próprio Cristo, para que assim, a Igreja possuísse um líder que pastoreasse o povo de Deus. Assim como outrora, o povo israelita possuía juízes, reis e escribas que os guiavam, a cátedra de Pedro foi deixada para os cristãos. Um legado que sobrevive até os nossos dias, através da tradição que também é o sustento da comunidade católica em todo o mundo.

CONCLUSÃO

Desde a mais antiga era, o povo do Senhor tem sido guiado por líderes, que com fé no Deus dos céus, tem levado os escolhidos ao conhecimento da verdade. A nação israelita, predecessora dos cristãos, chegou até nós com os mais belos exemplos de virtude e liderança. Encontraram em Moisés, Josué, Samuel, Davi, homens que os confirmariam na fé a ser seguida. A Igreja seguiu esse exemplo, firmando um líder, que aqui na terra, tem o poder de “ligar e desligar”, sendo que tal dádiva pastoral, foi concedido pelo único Rei dos Reis, Jesus Cristo, nosso salvador.

Paz e bem a todos!

Érick Gomes.